CAMPO DE SÃO FRANCISCO * PONTA DELGADA - SÃO MIGUEL - AÇORES *

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Nov 09

Artigo da autoria do Dr. Hugo Moreira, publicado na Insvlana - Órgão do Instituto Cultural de Ponta Delgada, volume IV - MCMXLVIII N.º 4 a pág. 508/516.

 

 

QUEM FUNDOU A ERMIDA DE NOSSA SENHORA DO DESTERRO EM PONTA DELGADA?


O Dr. Ernesto do Canto na «Notícia sobre as Igrejas, Ermidas e Altares da Ilha de S. Miguel» diz acerca desta ermida o seguinte:
"Ermida construída pelo Licenciado Francisco Nunes Bago e sua mulher Isabel da Costa Arruda e por eles dotada com quinze alqueires de trigo de foro, por escritura de 5 de Março de 1629, como consta do seu testamento de 24 de Julho de 1637 (n.º 1052 dos Testamentos da Relação dos Açores)
No processo n.º 436 dos Legados-Pios (antigo Cartório dos Resíduos) está um traslado do testamento do Licenciado Francisco Nunes Bago, feito pelo seu sobrinho o Padre João de Robles que muito elucida sobre a fundação da ermida de Nossa Senhora do Desterro.
Assim pela segunda verba dispõe:
«Item disseram que o Doutor João Gonçalves Homem seu irmão e cunhado, fizera à custa de sua fazenda uma ermida de Nossa Senhora do Desterro, e eles ditos testadores pe1a singular devoção que tiveram sempre, á invocação desta Sereníssima Virgem do Desterro, deram e dotaram por escritura pública de sua fazenda, para património da dita ermida, quinze alqueires de pão trigo para sempre de renda, na mão, e propriedades de que é foreiro António da Mota morador nas Capelas termo desta cidade, e em virtude do dito dote para sempre o Senhor Bispo deste Bispado dera digo (sic) dera licença ao dito Doutor, e aceitava o dito dote por património da dita ermida para por virtude dele se fabricar como fabricou. E a pôs no honrado estado em que a Deus graças digno (sic) em que a Deus louvores, está, e que de palavra tratarão o dito Doutor. E ele dito seu irmão de que quando morresse teria sua sepultura, para si, e sua mulher, e filhos, e herdeiros, e descendentes no corpo da mesma Ermida para o lado esquerdo porque o direito era bem que sempre tocasse ao dito doutor, e seus descendentes pois farão os que à sua custa formaram, e fizeram o dito templo a dita Sereníssima Virgem do Desterro, e que por ele dito licenciado Bago, ser muito devoto da dita Senhora do Desterro, e o mesmo ser a dita Isabel da Costa de Arruda sua mulher eram contentes que levando-os Deus desta vida seus corpos sejam enterrados, e sepultados na mesma ermida no lado esquerdo dela como fica dito.
Pela terceira verba impõem sobre suas terças duas capelas de missas por suas almas, com responso sobre suas sepulturas, ditas pelo Padre João de Robles, pelas quais darão seis mil reis de esmola e dez tostões para vinho e cera, e quando este padre as não possa dizer seus herdeiros escolherão o sacerdote que lhes parecer.
A verba quarta diz na íntegra:
«Item manda que logo se compre uma campa da mesma grandura, e feitio da que está na cova do dito doutor, primeiro Padroeiro desta senhora sereníssima do desterro para que sempre se veja que são dois irmãos, que Deus foi servido fazer unidos, e amigos e que estão ambos sepultados, e abrigados debaixo da protecção, e amparo, de tão poderosíssima Senhora que tomou à sua conta favorecer esta família.
Em 11 de Março de 1645, ainda se não havia posto a campa no seu lugar.
Por 1924, quando esta Ermida foi assobradada de novo, a expensas de António Domingues Miranda, já falecido, foi encontrada uma pedra de basalto com uma inscrição epigráfica, em letras maiúsculas, no lado do Evangelho, e para decifrá-la chamaram o eminente genealogista Rodrigo Rodrigues, que depois de a ler insistiu para que se deixasse um alçapão sobre a campa, o que infelizmente se não fez.
Os dizeres da inscrição, desfeitas as abreviaturas e posta em ortografia moderna, são:
«Sepultura do Licenciado João Gonçalves Homem, sua mulher e herdeiros»
O Licenciado Francisco Nunes Bago, e seu irmão, o Licenciado João Gonçalves Homem, eram filhos de Nuno Gonçalves Homem e de sua mulher Águeda Fernandes.
Tiraram os seus cursos na Universidade de Coimbra.
O nome do Licenciado Francisco Nunes Bago, ficou conservado na toponímia micaelense durante muitos anos e em diversos lugares. Em Vila Franca do Campo, a rua que segue ao longo do lado sul do adro da Matriz e que vai até à rua do Visconde da Palmeira, é conhecida ainda hoje pelo nome de rua do Bago.
Na freguesia do Livramento, a Canada de Jesus, Maria, José foi outrora conhecida pelo nome de Bago.
Em Ponta Delgada, a actual rua José Maria Raposo de Amaral, onde residiu, foi conhecida durante muitos anos pelo seu nome. Deve ter vindo viver para esta rua por cerca de 1608, onde residia até à data da sua morte, ocorrida em 9 de Junho de 1637.
Antes de vir morar para esta rua o Licenciado Francisco Nunes Bago viveu na actual rua Hintze Ribeiro, mais conhecida por rua do Frade. Para confirmá-lo existe um arrendamento feito pelo provedor e conselheiros da Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada, em 5 de Março de 1595, no livro 1.º de Notas e Contractos da Santa Casa da Misericórdia, que diz:
“… e perante eles ……… apareceu o Licenciado Francisco Nunes Bago e por ele foi dito que... tinha arrendado a Gabriel Pinheiro por tempo de um ano umas casas que Belchior Fernandes de Castro que Deus tem, deixara a esta Santa Casa as quais estavam sitas na rua do Licenciado Manuel Garcia que Deus tem nesta cidade que partiam de norte com herdeiros de Gaspar Rodrigues sogro de Lourenço Vaz Carreiro e do sul Manuel da Silva mercador e do nascente com a dita rua e do poente com Manuel Martins Soares.... e, que ele determinara de se vir morar nas ditas casas com a Senhora sua mulher e família e porque pretendia viver nelas por mais tempo e na sua mão estava a renda e aluguer seguro……. o Senhor Provedor e Conselheiros tomadas as notas assentaram que lhas dessem por tempo de dois nove anos e por preço de dez mil reis em cada ano… que começarão a correr do tempo que se acabar o ano por que farão arrendadas ao dito Gabriel Pinheiro e o primeiro pagamento dos ditos dez mil reis fará o dito Licenciado pelo Natal que vem, em que se começa a era de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e noventa e sete anos)”.
Estas casas em 2 de Fevereiro de 1608, foram aforadas a Simão Gonçalves Pinheiro.
O Licenciado Francisco Nunes Bago, deve ter vindo residir para a rua do Licenciado António de Frias por cerca de 1608, pois começa esta rua a ser também designada pelo seu nome, a partir desta época.
Numa escritura de 11 de Setembro de 1626 diz-se!
“na rua do Licenciado António de Frias defronte das casas em que ele dito Licenciado Francisco Nunes Bago vive...”
Desempenhou vários cargos de importância. O de Ouvidor do Capitão Donatário, o de Procurador de D. João de Sousa de Ataíde (Conde da Castanheira), o de Secretário da Câmara Municipal e Advogado da Santa Casa da Misericórdia.
O Licenciado João Gonçalves Homem foi o primeiro médico micaelense que se formou na Universidade de Coimbra. Era médico do partido da Câmara Municipal de Ponta Delgada e da Santa Casa de Misericórdia, de onde foi suspenso pela seguinte deliberação:
“Impedimento do físico, o Licenciado João Gonçalves Homem em quinze dias do mês de Dezembro de seiscentos e treze anos no Consistório da Santa Casa da Misericórdia desta cidade de Ponta Delgada estando na mesa o Provedor Jerónimo Gonçalves de Araújo e os Conselheiros que no dito ano servem abaixo assinados por eles todos juntos foi assentado que porquanto o Licenciado João Gonçalves Homem físico que até agora serviu na dita casa por quanto tinha mal procedido com ela na demanda que seu sogro Bartolomeu Martins corre com esta Casa sobre o adro dela falando e fazendo e ajudando-o em tudo e contra o bem dela do que toda a Irmandade está escandalizada e muito mais os que na dita mesa servem, pelo que assentaram se lhe pagasse o tempo que tinha servido e se tomasse médico que a dita casa servisse e assinaram e eu João Lopes Moniz escrivão da dita casa que o escrevi”
Esta suspensão foi motivada pela vinda do Juiz e oficiais da Câmara Municipal à Santa Casa e terem visto, transformado em monturo, o adro do lado do poente, que servia de travessa, ocasionando assim muitas ofensas a Deus. Ordenaram que a Santa Casa o tapasse e servisse de cemitério para os pobres que falecessem no hospital da Santa Casa e assim mandaram a Bartolomeu Martins que tapasse uma porta que tinha feito, havia poucos dias, para o dito adro. A casa do mercador Bartolomeu Martins confrontava com o adro da Santa Casa pelo nascente.
Em 1616-1617 tudo se harmonizara, pois o Licenciado João Gonçalves Homem, voltara novamente a ser médico em serviço na Santa Casa da Misericórdia e até Conselheiro da mesma. Veio a falecer em 16 de Junho de 1633 e «está sepultado na sua ermida de nossa Senhora do Desterro».
Fundou, pois, a Ermida de Nossa Senhora do Desterro de Ponta Delgada o Licenciado João Gonçalves Homem, e deu-lhe dote de património seu irmão o Licenciado Francisco Nunes Bago.
O Conde de Vila Franca do Campo, D. Manuel da Câmara, fazia-lhes muita amizade (“Insulana” Vol. I pág. 64) tendo servido de padrinho a Inácio, filho do Licenciado Francisco Nunes Bago e de testemunha no casamento do Licenciado João Gonçalves Homem.

publicado por Ruben Amorim em:- igrejasaojose às 17:29

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PÁROCOS DA PARÓQUIA DE SÃO JOSÉ DE PONTA DELGADA
  • 1.º - Bacharel Ascénio Gonçalves -
  • 2.º - Padre Francisco Fernandes – 1581 a
  • 3.º - Padre José da Costa Marrecos – 1635 a 1669 (34 anos)
  • 4.º - Padre Francisco da Cunha Prestes – 1670 a 1687 (17 anos)
  • 5.º - Padre Cristóvão Soares de Melo – 1692 a 1725 (33 anos)
  • 6.º - Padre Pedro Ferreira de Medeiros – 1726 a 1760 (34 anos)
  • 7.º - Padre João Francisco Tavares – 1764 a 1768 (4 anos)
  • 8.º - Padre Joaquim de França – 1790 a 1798 (8 anos)
  • 9.º - Padre Manuel José do Rego – 1800 a 1809 (9 anos)
  • 10.º - Padre Jacinto Tavares do Rego Oliveira – 1814 a 1831 (17 anos)
  • 11.º - Cónego José de Medeiros e Sousa – 1833 a 1868 (25 anos)
  • 12.º - Padre António Luciano Horta – 1868 a 1891 (23 anos)
  • 13.º - Padre Manuel Augusto Pereira – 27/9/1893 a 1932 (39 anos)
  • 14.º - Padre Adelino Francisco de Oliveira – 1932 a 1939 (7 anos)
  • 15.º - Padre Jacinto Monteiro (vacatura) – 1939
  • 16.º - Monsenhor António de Almeida Maia – 22/10/1939 a 1992 (53 anos)
  • 17.º - Padre Laudalino de Sousa Duarte Frazão – 1992 a 8/8/2000 (8 anos)
  • 18.º - Monsenhor e Cónego José Garcia – 8/8/2000 a 17/10/2010 (10 anos)
  • 19.º - Padre Dr. Duarte Manuel Espírito Santo Melo – 17/10/2010
  • COMPILAÇÃO
    Rúben Borges de Medeiros Amorim - Contacto:- ruben.amorim@sapo.pt
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